Corporalidade
Como a sociedade hiperconectada está moldando a nossa relação com o corpo?
“O sujeito vive o mundo no corpo e o corpo no mundo” Isildinha Baptista
No mês de junho, fiz um curso de teatro. Já tinha feito algo na adolescência e lembro de gostar muito, mas não tinha ainda feito nada parecido na vida adulta. Foi algo que mexeu muito comigo.
Em todas as aulas, a professora começava com um exercício para, segundo palavras dela, “nos trazer de volta para o corpo”. E em várias aulas eu fiquei impressionada em como isso tinha uma capacidade enorme de modular as minhas emoções. Lembro de uma das aulas que cheguei com um baita mau humor depois de um dia ruim. Fiz o primeiro exercício e esqueci totalmente do que tinha acontecido no dia e da irritação que eu estava.
Outro ponto que marcou bastante, não só pra mim mas para meus colegas também, foi como o curso teve a capacidade de nos colocar em estado de presença total durante as aulas, algo que raramente vivemos hoje em dia. Nós fizemos exercícios que eram totalmente físicos, como ficar vendados enquanto um colega nos guiava pela sala ou usar outra pessoa como argila para criar uma cena (sim, bem teatro mesmo kk).
Após toda esse experiência, tenho pensando muito na relação atual da nossa sociedade com o corpo, principalmente em um mundo de excesso de tempo de tela. Ainda lembramos o que é ter um corpo? Há espaço para sentir o corpo no mundo atual? A partir desses questionamentos, fui investigar a corporalidade.
RESGATE DO CORPO
O corpo, historicamente, não é totalmente nosso. Ele é submetido a regras de sua época e a imposições do padrão vigente. Corpos que ousam ser livres, ainda hoje, sofrem de muito julgamento. Principalmente quanto falamos de corpos femininos.
A ascensão do monoteísmo e das principais religiões abraâmicas da atualidade tomou tradições seculares de espiritualidade somática por meio da dança, do sexo, do ritual, do transe e das sensações físicas – religiões que nos colocavam diretamente no berço cíclico da natureza – e as substituiu por noções de pecado e indignidade. Os corpos das mulheres, especialmente, com sua menstruação, parto e sensualidade, foram demonizados. A própria natureza do corpo e nossa experiência direta com ele foram obscurecidas. [Tradução livre]
Nas pesquisas sobre o assunto me deparei com a newsletter The Return To The Body Will Not Be Gentle (fonte do trecho acima), da consultoria The Concept Bureau. Nesse texto, a autora Jasmine Bina fala sobre como as pesquisas que ela tem feito nos últimos anos apontam para um certo ~retorno ao corpo. Esse corpo que para muitos pode ser considerado uma prisão, está sendo retomado através de rituais, medicações e terapias psicodélicas.
O que ela diz é que “as pessoas em nossa sociedade estão sistematicamente separadas de seus próprios corpos”, mas que há um crescente movimento para “acordar para o corpo pela primeira vez e brincando com a ideia de torná-lo o que queremos que ele seja.”
AS TELAS E A DESCONEXÃO
Por mais que eu concorde com a visão da Jasmine Bina sobre a retomada do corpo, fico pensando que a super valorização da racionalidade atual e um mundo vivido através das telas pode ter nos colocado em uma desconexão com o corpo mais forte do que nunca.
Vivemos em um mundo onde há uma demanda muito maior do mental, o que com frequência nos fazer esquecer que temos um corpo. Ou melhor, que SOMOS um corpo. Saímos de tela para a outra, usando apenas a cabeça nesse tempo, lembrando do corpo apenas quando as costas doem.
Esses dias uma pessoa que eu admiro compartilhou nos stories a frase que abre esse texto e eu fiquei pensando em como fica nossa relação com o mundo se experienciamos ele através da tela, e não através do corpo. Que percepção do mundo podemos criar se estamos apenas ASSISTINDO ele, e não VIVENCIANDO ele?
A sensação é de que estamos todos vivendo como Nixon, de Futurama, essa cabeça flutuante que com frequência é acoplada a um corpo robótico. Que só usamos o cérebro e o restante fica apenas como o suporte.
EXCESSO DE MONITORAMENTO E DATIFICAÇÃO DO CORPO

Há outro aspecto que também influencia muito na corporalidade atual que é o constante monitoramento e obtenção de dados sobre esse corpo. Deborah Lupton, socióloga digital contemporânea, explora esse assunto no livro Digital Health. Ela fala sobre como tecnologias digitais de saúde convertem tecidos, órgãos e índices vitais em dados e sensações em dashboards.
Uma das consequencias desse movimento é que esses dados sejam vistos como “verdade absoluta", como aquela máxima de que “dados não mentem", fazendo que tudo que não seja possível de quantificar seja considerado “menos real". Ela usa uma expressão que acho fascinante para definir aplicativos de medição de saúde, como "dispositivos de biopoder".
Outra consequência possível é quando esses dispositivos de medição acabam se tornando uma auto vigilância, de sujeitos que não conseguem mais viver sem se auto monitorar e acabam deixando outras experiencias mais subjetivas de lado. Sensação de máquina total.
NOVOS SENTIDOS DO CORPO
Como provavelmente todos humanos do mercado de trabalho atual, tenho pensado muito no que nos difere da inteligência artificial e acho que SER um corpo é uma das principais diferenças. Mesmo que uma inteligencia artificial esteja em um dispositivo ou um robô humanóide, ela é colocada lá por um agente externo. Ou seja, ela GANHA um corpo. Nós SOMOS esse corpo que existimos. Não existe possibilidade de continuidade de vida sem ele e é nele que está gravado quem fomos e somos.
Isso também me leva a pensar em questões como plásticas e transformações corporais que estamos vendo todos os dias nas redes sociais. Desde que vi a foto da mudança no rosto da Kris Jenner, mãe das Kardashians, tenho pensado muito sobre o assunto.
Só que ela não é uma versão mais jovem de si. Ela é a mesma pessoa, com um rosto rejuvenescido. Fico pensando no impacto que é uma mulher de 70 anos se ver assim, com um rosto de no máximo 40 anos. Será que ela tem vontade de fazer as mesmas coisas que fazia com aquela idade? Será que ela volta a se comportar do mesmo jeito? Os desejos mudam? Será que ela fez isso no corpo inteiro? Pode ser que o corpo tenha uma aparência mais nova, mas o funcionamento interno não há como rejuvenescer: um metabolismo de 40 anos não funciona igual aos 70. E como ela lida com isso? Acho que meu sonho atual é entrevistar a Kris Jenner e tentar entender as profundezas internas de uma transformação assim.
Me parece que saber ouvir, sentir e entender o corpo é algo mais importante do que nunca. Não somos ensinados a isso e com essa hipervalorização da racionalidade atual podemos até esquecer da importância. Não lembrar só do corpo que performa, mas do corpo que SENTE.
Acredito que o movimento de buscar o corpo e se reconectar com ele só vá crescer. Quanto mais tempo passamos diante das telas, mais sentimos a desconexão com o corpo. Assim como a Jasmine Bina argumenta, acredito que cada vez mais pessoas vão buscar práticas, experiências e caminhos que ajudem a voltar pro corpo. Se você virem um aumento na busca por cursos e aulas de teatro, aposto que vão lembrar dessa news.








Um sintoma muito forte que eu vejo dessa distância (e a busca pela reconexão com o corpo) é em relação ao parto. O Brasil é campeão em cesáreas, e isso se deve muito ao mercado da saúde (menos custo aos hospitais, menos riscos aos médicos), mas conversando com amigas grávidas, vejo como também é o medo da dor (e a incerteza do que vai acontecer com seu corpo) o principal motivo pela escolha dessa via de parir. Quando escolhi tentar parto vaginal, lembro que as leituras - e conversas com doulas - iam muito pro lugar do: "o corpo sabe o que fazer", "tu vai sentir a melhor posição pra ti", e isso é em parte verdade mas pra isso acontecer a gente precisa saber ouvir o corpo, e essa desconexão com o corpo dificulta a construção desse saber, o que acaba levando cada vez mais mulheres à uma cirurgia muitas vezes desnecessária para parir.
Eu AMEI esse texto, Monica!
E uma coisa que tenho refletido sobre a desconexão do corpo é também a percepção -- ou falta de -- que temos sobre ele. Em tempos de Ozempic e tantos procedimentos estéticos, não sabemos mais como uma pessoa de 30, 40 ou 70 anos "deveria" se parecer. Sinto que os padrões de beleza parecem ter linhas mais tênues, porém, não menos rígidas.
Amei sua reflexão! <3