Sociedade da desconfiança
Como o crescimento no número e na complexidade dos golpes tem nos levado a viver em um estado de alerta permanente
Golpes definitivamente não são algo novo no nosso país. Pesquisando para fazer esse texto, encontrei relatos de que o golpe do bilhete premiado, um dos mais famosos do país, tem registros de ter acontecido desde 1965:
Pra quem não conhece, o golpe funciona mais ou menos assim: uma pessoa simplória e ingênua, parecendo alguém que vem do interior e não entende muito sobre as coisas, aborda pedindo ajuda, dizendo que tem um bilhete que parece ter um prêmio da loteria, mas que ela não tem como retirar por algum motivo x. Uma segunda pessoa aparece, mais arrumada, e entra na encenação para confirmar a veracidade do bilhete, fingindo uma ligação para a Caixa. A partir dessa confirmação, a pessoa numero 1 diz que não quer o prêmio e que troca o bilhete premiado com um valor super alto por algo como 20 mil reais.
Contando assim parece óbvio que é um golpe. E depois de descobrir o funcionamento, parece idiota cair nesse tipo de golpe. Mas eles não funcionam por acaso: são estruturados e pensados para ativar gatilhos que a maioria de nós possui. São milimetricamente pensados para despertar medos, fraquezas e sensibilidades que qualquer humano tem. Em geral dentro de um perfil específico, para que a abordagem funcione melhor. Mas golpistas devem ser os maiores entendedores de comportamento humano atualmente, talvez mais do que muito marketeiro.
[tenho uma curiosidade enorme de saber como se montam novos golpes. rola um brain? vão testando e aprimorando? voltam pra casa e fazer uma reunião para revisar o que deu certo e o que podem melhorar na próxima? enfim, questões….]
Mas apesar de ser algo antigo, os golpes seguem crescendo: segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025, houve um acréscimo de 408% (QUATROCENTOS e oito porcento) dos registros pelo crime de estelionato no Brasil entre 2018 e 2024.
E assim como em tantos aspectos da nossa vida, a transformação digital também chegou nos golpes: 94% dos brasileiros sofreram ao menos uma tentativa de golpe por mês em 2024 e, dos 8 mil brasileiros vítimas de golpes a cada hora, 4,6 mil pessoas são alvos de tentativas de golpe via mensagens ou ligações.
O Brasil ocupa hoje a segunda posição no ranking mundial de golpes digitais, com mais de 700 milhões de tentativas registradas em apenas um ano. E essa mudança que o digital trouxe para os golpes não aumentou apenas a quantidade, mas também a variedade e a complexidade. Não é mais apenas alguém que te aborda na rua com uma história, há tecnologias envolvidas, como uso de IA, roubo de dados e clonagem de cartões. A sensação é que todo dia tem um “golpe novo na praça”.
A complexidade e sofisticação dos novos golpes faz com que cada vez fique mais dificil de acompanhar, e que muitas vezes seja inclusive difícil de reconhecer que é um golpe. A famosa culpabilização da vítima com aquela resposta “mas é obvio que era golpe, como que tu caiu nisso” tão comum de se ouvir aqui no Brasil, tem ficado cada vez mais rara.
Mas ela ainda acontece. Aqui no Brasil há uma especificidade cultural que nos faz geralmente cupar a vítima, que é o famoso ~jeitinho brasileiro.
O jeitinho não é apenas uma caracerísitca, é um modo de ser brasileiro. E não é apenas algo coloquial, é objeto de estudo científico. Em 1986, a antropóloga Livia Barbosa publicou sua tese de doutorado sobre o jeitinho brasileiro, que depois veio a ser adaptado para um livro. A explicação dela sobre o jeitinho é que ele é:
“uma forma “especial” de resolver algum problema ou situação dificil ou proibida; uma solução criativa para alguma emergencia, seja sob a forma de burla a uma regra ou norma preestabelecida”.
O jeitinho é algo tão enraziado que nos faz viver no modo “busca por vantagem”. Estamos sempre buscando forma de obter vantagens, seja através da maneiras criativas de resolver problemas ou pela clássica corrupção.
Só que ao mesmo tempo que buscamos obter vantagem, nós também SABEMOS que podemos sofrer uma tentativa da vantagem. E essa consciência da busca pela vantagem faz com que a gente quase sempre culpe as vítimas em caso de golpe. É a famosa frase “todo dia saem de casa um malandro e um ótario”. Se você caiu no golpe, é porque você escolheu ser o otário. Você deveria estar mais esperto, mais ligado. A culpa é sua.
Essa culpabilização das vítimas por não terem sido espertas o suficiente, somada ao aumento do número e variedade de golpes que o digitail têm possibilitado, tem gerado um sentimento constante de insegurança e medo, causando uma SOCIEDADE DA DESCONFIANÇA.
É medo de cair em golpe, é medo de acreditar numa fake news, é medo de cair no golpe que era óbvio porque não conhecia, é medo de receber uma informação falsa e acreditar, é medo de clicar num link e ter os dados roubados. Medo de beber bebida adulterada. Uma sensação de medo constante e contínua, sem trégua.
Estamos convivendo com um sentimento de desconfiança full time. É como se precisasemos ter um radar ligado 24h por dia, exigindo uma energia e uma atenção para que se esteja protegido. É viver em estado de alerta permanente. Vi a Maíra Blasi falando sobre isso esses dias no perfil dela do instagram, que com o caos do metanol a pior coisa para ela é ter que “inaugurar mais uma coisa pra desconfiar.”
Fazer esses questionamentos é importante para falarmos sobre as consequências de viver no modo desconfiança full time. Além de uma exaustão por precisar estar sempre com um alerta ligado, há dois principais aspectos críticos:
Uma perda de confiança sistêmica: 45% das vítimas relatam impacto emocional significativo após sofrer um golpe, que pode se transformar em uma desconfiança generalizada.
Agravar ainda mais o isolamento e hiperindivualização: para evitar a exaustão da desconfiança, o isolamento aparece como uma suposta e frágil proteção.
São duas consequências sérias e preocupantes, mas a segunda em particular me entristece ainda mais. Se proteger é realmente necessário, mas a linha entre a proteção e o isolamento pode ser muito tênue. Vivemos um momento do mundo onde estamos sendo empurrados para o isolamento por diversas causas, e ver a desconfiança se tornar quase um modo de vida é preocupante.
Entendo que precisamos de medidas sérias e comprometidas da empresas e governos para criar cada vez maiores proteções contra golpes, principalmente com o avanço da inteligencia artificial. A privacidade dos dados e segurança das informações é algo cada vez mais preocupante.
Mas também é preciso reconhecer esse constante estado de alerta em que vivemos, para talvez assim pensarmos em como construir novas formas de confiança. E sem culpar as vítimas, para não empurrarmos que já está fragilizado para um ciclo de vergonha e/ou culpa. Quanto mais constrangemos quem passou por algo assim, mas a sociedade da desconfiança se alimenta.









Muito bom o tema, realmente os golpes no Brasil utilizam de estratégias sofisticadas. Gostei da reflexão sobre este estado de alerta e hipervigilância que acaba gerando na sociedade. Adiciono na conversa um podcast muito bom que ouvi sobre o tópico "A infame escola de Golpes". O episódio mostra como existe uma estrutra de ensino de golpes nas redes sociais, tutoriais e cursos para passar a perna nos outros https://radioescafandro.com/2025/09/30/148-a-infame-escola-de-golpes/
realmente, o texto fez enxergar um circuito emocional bem fechadinho: medo de cair no golpe > desconfiança > isolamento > desproteção > cai no golpe > culpa ou vergonha > mais isolamento e desproteção >>